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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aprendizagem Socioambiental em Livre Percurso - Experiência UMAPAZ

Esta coletânea registra e comenta o trabalho de educação ambiental e cultura de paz que vem sendo realizado na Cidade de São Paulo pela Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ), da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, desde 2005. 

Tem o propósito de estimular a reflexão sobre a experiência e a abordagem metodológica da aprendizagem socioambiental, que incorporou princípios e orientações contemporâneos para a educação ambiental, crítica e inclusiva, e vem construindo seu próprio invento. Esse modo de ser no mundo é pautado pela reconstrução do sentimento de pertencimento e de interdependência sistêmica do Planeta e uns dos outros, pelo reconhecimento dos componentes éticos dessa teia, vem como pelo envolvimento das diferentes dimensões da ecologia, como bases da sustentabilidade da vida e da convivência humana.

Acesse a publicação clicando na imagem abaixo:


quarta-feira, 13 de junho de 2012

3º leilão de Crédito de Carbono


No dia 12 de junho aconteceu o 3º leilão de Crédito de Carbono do gás captado dos aterros São João e Bandeirantes, na Bolsa de Valores.
 
A emissão dos aterros significava 25% das emissões de CO2, segundo o Inventário de Gases de Efeito Estufa. A captação e transformação em energia elétrica - para mais de um milhão de pessoas - reduz significativamente essa emissão.
 
Os recursos dos créditos de carbono devem ser - e são - utilizados na mesma região do local de captação. 

Com os recursos obtidos com os dois leilões anteriores de créditos de carbono da captação do gás dos aterros, nos anos anteriores, foi possível:
1. Fazer as desapropriações do Parque Linear Ribeirão Perus; CRAS Anhanguera; Implantação de Praças Sub de Perus; Desfazimento sub de Pirituba
 2. Fazer as desapropriações do Parque Linear Ribeirão Perus; Parque Senhor do Vale; CRAS Anhanguera; Implantação de Praças Sub de Perus; Desfazimento sub de Pirituba.
 3. Fazer as desapropriações do Parque Linear Ribeirão Perus; Desapropriações Ampliação do Parque Anhanguera; Parque Senhor do Vale; CRAS Anhanguera; Implantação de Praças Sub de Perus; Escola de Marcenaria Parque Anhanguera.
 4. Parque Senhor do Vale; Projeto do Parque Linear Ribeirão Perus; CRAS Anhanguera; Implantação de Praças Sub de Perus; Escola de Marcenaria Parque Anhanguera; Cercamento e Paisagismo do CRAS Anhanguera.
 5. Construir a Escola de Marcenaria no Parque Anhanguera; Vivero Parque Anhanguera; CRAS Anhanguera; Cercamento e Paisagismo do CRAS Anhanguera.
6. Fazer a desapropriação do Parque Linear Limoeiro
7. Implantar o Parque Nebulosas, Cercar o Parque Sapopemba, Projeto de Hidraulica e Eletrica Parque Sapopemba

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Por algumas árvores a mais


Por Marli Olmos e Bettina Barros

O tradicional chope depois do expediente foi marcado naquele final de tarde pelo soco na mesa e o grito que veio junto. "Conseguimos!", vibrou, ao ver os colegas de trabalho, o jovem José Ricardo Hoffman, então responsável pela análise ambiental de novos projetos imobiliários na maior cidade do país. Ele levava a notícia de que uma mangueira frondosa localizada em um terreno pronto para edificação na zona leste de São Paulo seria mantida em pé. "Aqui é assim, a gente briga uma por uma."

A notícia com sabor de vitória para a equipe de técnicos da Secretaria do Verde e Meio Ambiente, o órgão responsável pela manutenção da cobertura vegetal de São Paulo, foi batalha perdida para alguma incorporadora da cidade. Sob o olhar de uma parte cada vez maior da comunidade, aquele que salvou a mangueira será aclamado herói e o que pretendia matar a árvore, bandido. Mas nessa luta diária pelo crescimento inexorável da metrópole não há bonzinhos nem malvados. O que está em discussão é mais complexo. A dúvida é: que tipo de lugar teremos para viver?

Dona de uma das leis de compensação ambiental mais rígidas no país, São Paulo ainda tenta entrar em acordo consigo mesma. A cidade que não dorme, não anda e não respira sobe a alturas cada vez maiores para acomodar seus 11 milhões de habitantes. Entre 2000 e 2011, o número de apartamentos lançados na cidade pulou de 29 mil para 37 mil ao ano, um ritmo que talvez só não impressione os chineses. Esse exorbitante processo de verticalização trouxe novos desafios a urbanistas e ao poder público. Moradia é preciso, mas também área permeável para escoar as chuvas de verão e copas para aliviar a panela de pressão que se cria quando a temperatura aumenta.

Por sua pujança econômica, São Paulo talvez seja a melhor representação dessa dicotomia. A pressão imobiliária, que atingiu seu pico com a onda de abertura de capital do setor em 2006, criou um senso de urgência maior. Na corrida pelo retorno rápido do investimento, sai melhor quem encontrar o terreno primeiro, prepará-lo antes, construir e colocar no mercado em 12 meses. E nesse ciclo quase sempre os desmates são inevitáveis. Ou eram.

Diante do quadro que se formava, a Secretaria do Verde se armou. Desde 2005 criou e aprimorou quatro portarias - 09/2005, 05/2006, 26/2008 e 44/2010 - que fecharam o cerco à expansão a todo custo. A mensagem do governo foi clara: precisamos do seu prédio, mas das árvores no entorno também.

"Não podemos ficar na ditadura verde, que estanca a expansão da cidade, e não podemos ficar na ditadura econômica, que prevê o crescimento a qualquer custo", pondera o secretário Jorge Eduardo, responsável pelo cobiçado carimbo do licenciamento ambiental na cidade. "Não é o nosso desejo impedir a construção de prédios ou brecar a expansão em São Paulo. Mas sustentabilidade é o equilíbrio entre o econômico, o social e o ambiental."

Que o desenvolvimento sustentável é o único caminho, ninguém questiona. Esse será um dos temas centrais nas discussões sobre os rumos do planeta na Rio+20, que ocorrerá em junho, no Brasil. Mas ele continua sendo um desafio que não saiu do papel. Apesar das evidências, até o momento o assunto atraiu pouca atenção no debate político que se inicia entre os principais nomes cotados para assumir a gestão de São Paulo a partir de 2013. Como devemos crescer permanece sem resposta.

Na prática, o que se nota é que o rigor da lei ainda não garantiu uma mudança de cultura nos negócios. É em clima de toma-lá-da-cá que continuam a ser definidos muitos dos processos de licenciamento para novos edifícios. Construtoras, incorporadoras e engenheiros ouvidos pelo Valor admitem que a fiscalização aumentou à mesma proporção das punições, sejam elas financeiras ou não.

A principal modificação trazida pelas portarias foi a determinação de que a densidade arbórea de uma área tem de ser a mesma após a construção do empreendimento. Isso significa que um terreno com 30 árvores antes da edificação deverá manter 30 árvores ao fim do projeto, de forma a garantir que a cobertura vegetal da cidade não seja afetada. Além de limitar corte e transplante no terreno, as novas regras impuseram ao setor privado o ônus de plantar e manter áreas verdes como compensação ambiental de seus projetos.

O impacto no mercado veio de diferentes formas. A maneira de se olhar para um terreno foi uma delas. Áreas muito florestadas passaram a ser um problema a quem tem pressa. "Dependendo do momento em que a empresa está, esses terrenos não são desejados ", diz Cláudio Bernardes, presidente do Secovi-SP.

Quanto mais árvores, alegam os incorporadores, mais tempo será necessário para a análise ambiental e maior será o custo da compensação. José de Albuquerque, diretor da Brookfield Incorporações - empresa listada em bolsa cujos lançamentos registraram um incremento de 32% em 2011, totalizando R$ 3,9 bilhões - diz que já deixou de comprar um terreno ao perceber que o licenciamento demoraria devido ao número de árvores. "Optamos pela liquidez", diz o executivo, ecoando a opinião de outros concorrentes.

O modus operandi habitual dos anos 80 e 90 -- pôr abaixo as árvores indiscriminadamente - foi revertido a um cuidado nos canteiros de obra impulsionado pela mão pesada da lei. As portarias paulistas reduziram o tamanho das árvores sob proteção. O padrão passou de 5 para 3 centímetros de DAP (diâmetro à altura do peito), a curiosa denominação no vocabulário ambiental que representa a espessura mínima do caule. Árvores nativas da Mata Atlântica são preciosas. Só podem ser derrubadas se estiverem comprometidas fisicamente. Espécies em extinção jamais podem ser mexidas, sob pena de crime ambiental.

Em virtude dessas regras, os projetos arquitetônicos são hoje obrigados a levar em conta a posição de cada árvore preservada. Albuquerque, da Brookfield, cita como exemplo o caso de um condomínio residencial construído no bairro de Campo Belo, na zona sul, no qual foi preciso fazer um recorte em "L" na garagem para preservar uma árvore de raízes profundas que não teve a remoção autorizada pelos técnicos da secretaria. Por causa desse "dente" na planta, a incorporadora desenvolveu um segundo pavimento de subsolo para acomodar as vagas de veículos previstas, o que teve o efeito maléfico (para o bolso do consumidor) de encarecer a obra e, portanto, o preço dos imóveis.

Mas o maior incômodo, dizem representantes do setor de construção, são mesmo as compensações. São Paulo tem três viveiros, que produzem 1,64 milhão de mudas por ano. Mas, com o crescimento do ritmo das compensações, a capacidade desses espaços está praticamente esgotada. Pagar, por sua vez, é a opção menos aceita pelo município e, por isso, tem o fator de conversão mais caro. O município pretende também afastar as incorporadoras do trabalho mais fácil - dar o dinheiro - e forçá-las a arregaçar as mangas.

"Nós bem que tentamos pagar, mas não dá certo. Para nós, a segunda melhor opção é entregar mudas. Não somos especialistas em plantas. Nosso negócio é construir", diz Albuquerque, da Brookfield. Entre 2009 e 2010, a Brookfield ergueu dez empreendimentos na cidade, que resultaram na doação de 53,7 mil mudas e na reforma e manutenção de três praças públicas na rodovia Raposo Tavares. "Em dias de jogo de futebol, a gente fica rezando para nenhum torcedor contrariado destruir aquilo. Além de ter de replantar a área, a Prefeitura multa a gente. Não tem perdão nem em dia de jogo", diz o executivo.

"A coisa chegou a tal ponto que a gente nem planta mais aquelas mudinhas nos stands de venda. Porque se plantar, não pode mais arrancar. É uma coisa de louco", diz Luciano Radunz, engenheiro de gestão de obras da Requadro Incorporações, com forte atuação na zona central da cidade. "Agora, levamos vaso.”

Segundo Albuquerque, a compensação ambiental representa de 0,5% a 1% do VGV (valor geral de venda) do empreendimento. "Isso equivale, por exemplo, a elevar em até 50% o imposto ITBI recolhido pela prefeitura na averbação do imóvel", diz. "Não é pouco."

A necessidade de calcular o custo da compensação e conferir se o empreendedor terá os lucros que imaginou fez aumentar a procura pelas consultorias ambientais. Há dez anos, o engenheiro agrônomo Jorge Tauile Youssef começou a fazer esse tipo de trabalho. Logo teve de contratar uma equipe e abrir uma empresa, a Arvoredo Consultoria. "As empresas começaram a sentir no bolso a evolução da legislação", diz. Youssef nota que muitos empresários estão parados no tempo em que compravam um terreno, derrubavam a vegetação e só depois discutiam a compensação. Ele costuma sugerir aos clientes um diagnostico antes da compra do terreno para identificar restrições ambientais. Mas, muitos "continuam dando murro em ponta de faca". Segundo o engenheiro, a primeira pergunta que a maioria faz é: "Quantas árvores poderei cortar?"

"Ninguém é maluco de se opor à lei porque sempre vai aparecer alguma ONG e a comunidade para defender o verde", diz o diretor de relações institucionais da MRV, Sérgio Lavarini. Segundo ele, o paisagismo passou a fazer parte dos projetos. A MRV "foge" dos altos preços de terrenos na area central de São Paulo, mas coleciona ações de compensação ambiental em outras cidades. Em contrapartida à construção de um conjunto habitacional com 568 unidades, no bairro de Buritis, em Belo Horizonte, a construtora conserva, no mesmo bairro, o parque Aggeo Pio Sobrinho, com 600 mil metros quadrados de vegetação da Mata Atlântica e Cerrado, diferentes tipos de répteis, mamíferos e aves e três nascentes.

A evolução da legislação também leva à estocagem de terrenos. "Preciso ter estoques para 12 meses porque um terreno comprado neste ano, por exemplo, não estará disponível para ser colocado no mercado [já edificado] no ano que vem", diz o corretor da SFSA Desenvolvimento Imobiliário Sérgio Ferrador.

Quem visita a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, instalada em um prédio modesto no bairro do Paraíso, mal consegue enxergar os funcionários. Pilhas de processos sobre as mesas escondem técnicos, engenheiros agrônomos e o próprio secretário, Eduardo Jorge, um médico esguio que comandou a Secretaria da Saúde na gestão de Marta Suplicy.

Apesar do volume de trabalho, ninguém ali aceita queixas de demora. O ritmo dos processos foi acelerado em 2010, quando a secretaria reforçou o quadro de pessoal. Youssef, da Arvoredo, confirma que em uma licença simples, o chamado Termo de Compensação Ambiental, não leva mais do que 60 dias para sair. Antes chegava a seis meses e até um ano, diz. O problema é que o licenciamento envolve outras áreas, como habitação e transporte. E a obra só sai mediante carimbos de todas.

Além disso, a secretaria passou a comparar a planta do projeto que recebe com a que corre paralelamente na area de habitação. Trata-se de cuidado adicional, tomado a partir de constatações, no passado, de que às vezes o projeto que ia para uma pasta era diferente da que seguia para a outra, uma forma de driblar as exigências de cada uma. "Muitos se queixam de demora porque não contam o tempo em que o processo ficou parado com eles mesmos. Licenciamento é um jogo de bate e rebate", afirma o secretário. Eduardo Jorge não é o tipo que dá moleza, segundo contam empreendedores e técnicos. "Temos um lema: transparência, rigor e rapidez. Mas nessa ordem."

Desde a publicação da portaria 44, em maio de 2010, até o fim de 2011 foram emitidos 521 Termos de Compensação Ambiental. Nesse total, foi definido o plantio de 71,7 mil mudas no próprio terreno e o plantio externo (na calçada ou entorno do empreendimento) de 47,8 mil mudas. Há um ano criou-se a opção do depósito em dinheiro no Fundo Especial do Meio Ambiente (Fema), quando esgotadas as possibilidades de compensação. Isso gerou R$ 4,380 milhões, um dinheiro que, segundo a resolução determina, se destina exclusivamente à compra de terras para implantação de áreas verdes. Segundo a secretaria, da publicação da portaria, até o ultimo dia de 2011, foram preservadas 20.512 árvores.

A pressão popular para a preservação tem levado Eduardo Jorge a realizar apresentações públicas - além das audiências previstas em lei - quando determinada obra tende a criar polêmica. É o caso do Instituto de Engenharia, uma área com 195 árvores, na Vila Mariana. O instituto está prestes a derrubar o atual edifício para construir um novo e pede autorização para transplantar parte da vegetação e derrubar espécies doentes ou mortas. A cena de derrubada de uma árvore, mesmo morta, costuma mobilizar a vizinhança, nem sempre a par da situação. Mas os agrônomos da prefeitura já se depararam também com atos de má-fé. O engenheiro Sérgio Arimori, do departamento de proteção e avaliação ambiental, conta o flagra do caso em que haviam despejado óleo diesel sobre um caule raspado.

"É comum sermos acionados por vizinhos de andares mais altos, os primeiros a perceber quando alguém tenta cortar uma árvore que fica mais escondida, no fundo de algum prédio. Recebo telefonemas até de outros bairros", diz a presidente da Associação Amigos de Bairro Cerqueira César (Sammorc), Célia Marcondes, que sugere a criação de um serviço, na internet, para que a população possa acompanhar um processo de licenciamento.

O baiano Luiz Carlos Silva, mestre de obras há 29 anos da Davilar Projetos e Empreendimentos, diz que a preocupação popular é um movimento recente e real. Responsável pela mão de obra de uma construção nos Jardins, ele diz que a remoção das árvores do terreno - pitangueiras e palmeiras entre elas - alardeou vizinhos e transeuntes, que acionaram o disque-denúncia da prefeitura. "Já vieram uns dez fiscais aqui ver se a gente não estava derrubando árvore. Mas vocês acham que eu sou louco? Dá multa de R$ 10 mil por cada uma delas", diz Silva, mostrando que conhece a lei.

O receio do efeito de uma declaração desfavorável à causa ambiental também assusta os grandes empreendedores. Nenhuma das maiores construtoras consultadas pela reportagem do Valor quis comentar o assunto. Mas nem todos poupam a Secretaria do Meio Ambiente. "Está vendo essas pessoas?", pergunta o presidente do Metrô de São Paulo, Sérgio Avelleda, apontando um dos monitores instalados em sua sala, no centro da cidade. São quase 18h de uma terça-feira e a plataforma de embarque e desembarque na estação Sé está lotada de passageiros. "É a pressão dessa gente que me exige não perder tempo nas obras", diz. Avelleda defende tratamento diferenciado para obras como a do Metrô, que, ao final das contas, segundo ele, serão positivas no balanço da conta ambiental. "É diferente de um prédio, que traz mais gasto de energia, de água e provoca mais trânsito. Já o Metrô ajuda a reduzir a emissão de CO2 e os acidentes de trânsito", destaca.

Avelleda diz não ser contra as exigências para o licenciamento. "Mas uma obra como a do Metrô deveria ser autorizada a começar enquanto corre o processo de licenciamento. A fiscalização se incumbiria de acertar problemas e até suspender a obra caso a compensação não fosse cumprida", completa.

Para ele, a exigência de que um processo, que já passou pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente volte, para receber avaliação final da mesma equipe, depois de já ter passado por todas as etapas necessárias ao licenciamento, eleva poderes de uma única pasta. "A Secretaria do Meio Ambiente está se transformando numa super autoridade", diz o executivo. "Com esse olhar amplo sobre as ações do Estado, a autoridade ambiental está suplantando a administração pública", destaca.

As obras do metrô estão na mira do Meio Ambiente. Um dos casos mais polêmicos foi o licenciamento do trecho 1 da linha, em forma de monotrilho, que ligará Vila Prudente à avenida do Oratório. Sérgio Arimori conta que além de ajustar cortes de árvores sugeridos, o engenheiro que analisou o processo recusou as justificativas do Metrô para construir um pátio de manobras dos trens.

O traçado proposto atingiria uma grande área de vegetação nativa, com exemplares de quaresmeira, pau-ferro, cedro e sibipiruna. O secretário Eduardo Jorge indeferiu o pedido, com base no parecer técnico em dezembro de 2010. Em maio do ano seguinte, um novo pedido chegou à secretaria com um traçado diferente, que previa a desapropriação de área ao lado do projeto inicial, onde antigamente funcionava a fábrica de linhas Corrente.

Para Eduardo Jorge, o processo de licenciamento é uma questão própria da complexidade de uma cidade como São Paulo. "Às vezes somos acusados de retardar o desenvolvimento econômico. Assim como também não é justo achar que agora é a vez da ditadura do verde, do mesmo jeito que no século passado havia a ditadura do econômico." Quem sabe um dia os dois lados dessa batalha se sentem à mesma mesa, para compartilhar um "happy hour" depois do expediente.



Reportagem retirada de: http://www.valor.com.br/cultura/2594610/por-algumas-arvores-mais

segunda-feira, 12 de março de 2012

Prêmio Ambiente Sustentável

"Parabenizamos a Escola Municipal de Educação Infantil Professora Olandya Peres Ribeiro, situada na região de Aricanduva, pelo premio Ambiente Sustentável - categoria Educação, concedido pela Editora Três."

Rose Marie Inojosa
Diretora do DEA/UMAPAZ
Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura de Paz

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PEDÁGIO URBANO

O Pedágio Urbano, adotado por cidades como Londres (Inglaterra), Singapura (Singapura) e Estocolmo (Suécia), tem o propósito de contribuir para a redução dos congestionamentos urbanos, com importantes ganhos para a saúde humana e ambiental.
Bogotá (Colômbia) anunciou que planeja implantar o pedágio urbano, iniciativa que será pioneira na América Latina.
Seu sistema será semelhante ao adotado em Singapura, cuja tarifa nas horas de pico varia conforme o nível de congestionamento e a cobrança é realizada por meio de um dispositivo eletrônico chamado de "terceira placa", que é um transmissor conectado ao sistema - quando o carro passa por áreas de congestionamento a cobrança é automáticamente debitada.
 
Veja, também, o texto do Secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, publicado na Folha de S.Paulo:
 
"Li com entusiasmo artigo de Ricardo Abramovay publicado na Folha de São Paulo em 14/11/2011 sobre impasse entre expansão acelerada de veículos privados individuais (automóveis e motos) e mobilidade dos grandes centros urbanos.
  Sua tese é o conflito entre desenvolvimento sustentável e trânsito progressivamente paralisado, e cita três questões ligadas a este problema: ineficiência energética dos veículos, necessidade de uma oferta maior de opção de locomoção e um possível compartilhamento dos veículos.
  O conflito com o chamado desenvolvimento sustentável – que é o equilíbrio entre fatores social, econômico e ambiental – é muito maior nesse caso do que somente o drama do trânsito ou mobilidade. Além deste ponto, outros temas estão diretamente afetados pela hegemonia dos veículos individuais: a saúde pública e a crise climática/aquecimento global.
  Em São Paulo, Rio, Brasília, Salvador, Porto Alegre etc, não há provavelmente fator de morbidade e mortalidade mais agressivo do que o produzido pelo impacto dos veículos na saúde pública. Seja a poluição que nos adoece e mata lentamente, seja a epidemia de acidentes que matam 40 a 50 mil brasileiros por ano.
  Dos mesmos escapamentos gases outros saem também para atacar a saúde do planeta. No caso do Brasil, cerca de 50% das emissões são veiculares por uso de combustível fóssil, portanto nossa principal contribuição para o aquecimento global.
  Em São Paulo, desde 2005 algumas políticas públicas foram implementadas. Aumentamos a oferta de transporte público com ampliação do número de ônibus, expansão do metrô e modernização dos trens.
  A Secretaria Municipal de Transporte, que coordena o trabalho de 15 mil ônibus, já conseguiu em pelo menos cerca de 1.800 deles ter uma ação inovadora de substituição do diesel: recuperação dos ônibus elétricos, início da frota de ônibus a etanol, uso de 20% de biodiesel, ônibus híbridos elétricos/diesel, ônibus com diesel de cana. O apoio ao uso da bicicleta também ajuda e tudo isso é orientado pela lei climática municipal aprovada em junho de 2009.
  A Inspeção Veicular é um programa que diminui o impacto dos poluentes nos nossos sistemas respiratório e circulatório, reduzindo também o consumo de combustível fóssil e tendo ação positiva para o clima.
  No entanto, o conflito desenvolvimento sustentável x uso insustentável de  veículos privados movidos a combustível fóssil precisa de ação mais severa. O que está dando certo em algumas cidades como Londres, Estocolmo, Singapura, é o pedágio urbano.
  Ele não vem sozinho, porém só sua implantação já faz cair em 15% o uso do veículo.
  O recurso arrecadado pelo pedágio deve ficar em um fundo próprio vinculado à expansão da quantidade e qualidade do transporte público. Isso permite que a cidade avance celeremente na oferta de mobilidade pública.
  Kassab, Marta, Alckmin e Maluf, na última eleição para prefeito em 2008, prometeram não implantar o pedágio e tiveram 95% dos votos. Portanto a democracia diz que o povo não aprovou o pedágio naquela ocasião.
  Sugestão: fazer plebiscito municipal fora do período eleitoral para fugir da demagogia. Dois comitês, um favorável e outro contrário, teriam tempo suficiente para expor argumentos técnicos sobre o tema num ambiente menos contaminado pela paixão política e pelo desejo de poder.
   Uma última observação: o caso é grave e não pode esperar muito."

Forme sua Opinião.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Da Rio+20 ao mundo+100



Valério Igor Victorino
Sociólogo e Especialista em Desenvolvimento Urbano


Neste ano de 2012 o mundo comemora 40 anos de preocupação com o meio ambiente. A conferência de Estocolmo inaugurou polemicamente o debate sobre a governança internacional do meio ambiente, quando países como o Brasil e a Índia questionaram as premissas ambientais que orientaram os debates de cúpula frente às necessidades do desenvolvimento de suas economias. Em 1982 houve uma segunda conferência ambiental global em Nairóbi, no Quênia, a qual foi desprezada pelas grandes potências, que estavam mais preocupadas com os dramáticos lances da Guerra fria.
A conferência do Rio de janeiro de 1992 teve o mérito de promover a declaração dos princípios fundamentais da sustentabilidade e, de modo geral, todo o processo que culminou com a conferência conseguiu estabelecer um marco muito importante na governança ambiental internacional por conseguir posicionar a questão da sustentabilidade nas agendas políticas locais, nacionais e internacionais. Desta conferência surgiram os tratados sobre mudança climática, biodiversidade e desertificação. É por volta deste período que a questão ambiental começa de fato a se institucionalizar pelo mundo afora, fazendo parte de constituições nacionais e de estruturas administrativas locais, regionais e nacionais. Neste período começa a ser difundida a idéia de desenvolvimento sustentável, que mesmo sem que haja unanimidade a cerca de seu significado tem ampla aceitação em discursos públicos e privados “politicamente corretos”.
A despeito das melhorias em muitas áreas do desenvolvimento e do meio ambiente, o mundo não fez progressos significativos em direção à sustentabilidade aspirada na conferência do Rio 1992 e nos encontros ambientais internacionais subseqüentes. Nos últimos 20 anos a economia cresceu fortemente, mas os Objetivos do Milênio ainda estão longe de se realizarem para a maioria da população planetária. Junto com o crescimento do consumo global persistem as disparidades sociais e as desigualdades de gênero, os biomas e a riqueza da biodiversidade continuam em processo de deterioração e as crises econômicas, de energia, de alimentos são recorrentes.
A conferência RIO+20, que se realizará no final de junho de 2012, é apresentada como uma oportunidade mundial para reafirmar a sustentabilidade socioambiental como prioridade principal das organizações governamentais, econômicas e da sociedade civil e para reafirmar a validade contínua dos princípios da Declaração do Rio 92 e da Agenda 21. Dois serão os grandes temas desta conferência global: “A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e o quadro Institucional para o desenvolvimento sustentável.”
Contudo, o que é “economia verde”? O que é “desenvolvimento sustentável”? Estas expressões, não obstante sua popularidade em alguns meios, ainda são muito abstratas e por que não dizer vagas, de pouca consistência conceitual. Entre os principais desafios de um modelo econômico de produção e consumo sustentável estaria principalmente o de internalizar as externalidades dos custos ambientais garantindo a equidade social. Neste sentido a valoração dos recursos naturais e dos serviços ambientais emerge na forma de taxas e incentivos fiscais a práticas sustentáveis. Por outro lado, para reduzir a pobreza e promover a equidade social seria necessário determinar os objetivos socioambientais da economia verde. Para erradicar a pobreza a “economia verde” deverá gerar empregos, gerar renda e aumentar o consumo. Contudo, ficam as questões: qual tipo de emprego? Como aumentar o consumo das camadas de baixa renda dentro de um padrão sustentável de produção e consumo? A “economia verde” deverá significar um modelo de desenvolvimento econômico onde a responsabilidade da pessoa jurídica vá muito além da geração de lucro aos acionistas e incorpore expressamente em suas metas a redução da pobreza, a promoção da equidade social e preservação da riqueza dos biomas do planeta.
 Na coordenação desta “economia verde” o Estado deve garantir os direitos humanos básicos e promover a participação cidadã no planejamento e implementação de políticas públicas que conectem as dimensões sociais, ambientais e econômicas. Também deverá o Estado expandir a adoção critérios ambientais em suas contratações e licitações em todos os níveis administrativos, considerando-se que é o grande consumidor, por excelência. O fomento deste novo paradigma de produção e consumo poderá ser beneficiado pela priorização dos setores da economia que deverão tomar a dianteira do processo de mudança. Neste sentido as áreas de construção civil, energia, agricultura, transporte e turismo despontam como exemplos onde o engajamento inovador deve necessariamente se processar para promover os anseios desta nova economia.
A equidade social e a sustentabilidade devem estar no centro das políticas publicas e das decisões privadas, induzindo um novo padrão de progresso e prosperidade que vá além da medida tradicional do PIB. Para tanto basta recordar os princípios da Conferência anterior: Principio 4: Integrar as dimensões econômicas, sociais e ambientais na tomada de decisões e assegurar que os objetivos sociais e ambientais norteiem os enfoques econômicos;  Princípio 10: estabelecer e aprimorar os mecanismos de governança socioambiental participativa. Principio 21: investir no treinamento e emprego da juventude de modo a construir as habilidades básicas para tornar a economia verde e para assegurar a participação no processo de desenvolvimento e na divisão equitativa dos frutos do desenvolvimento.
É no nível local que devem ocorrer as manifestações concretas sobre a sustentabilidade que necessitamos. Neste sentido a Organização das Nações Unidas deve dinamizar os mecanismos de intercâmbio científico e tecnológico visando a troca de experiências de gestão estratégica dos territórios com vistas à construção de cidades sustentáveis – onde a articulação e a integração das políticas setoriais de mobilidade, habitação, energia, saneamento urbano e proteção da biodiversidade sejam uma realidade.
Enfim, a educação ou a reeducação de todas as gerações para a criação de um novo pacto social voltado para a sustentação da diversidade biológica e cultural do planeta, de acordo com princípios éticos da convivência pacífica e harmoniosa, é imperativa e urgente. A conferência Rio+20 é o evento ambiental mais importante da década e não podemos permitir que seus resultados sejam pífios ou inexpressivos; sob pena de estarmos desperdiçando uma imensa oportunidade de transformarmos os padrões culturais que tornam insustentável o nosso modo de existir e comprometem o futuro da vida no planeta.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

PLANEJAMENTO: O SONHO, A TERRA E O AMOR

PLANEJAMENTO
O SONHO, A TERRA E O AMOR
Rose Marie Inojosa1
RESUMO
Trata do processo de planejamento de projetos socioambientais. Tem como
propósito contribuir para a reflexão sobre a visualização e manutenção desses
projetos focados na visão de transformação da sociedade, como a alma do
planejamento. E, também, refletir sobre como o uso de ferramentas para o
desenho e a implementação dos projetos pode manter o contato com essa
essência, trabalhando com as ameaças e oportunidades que todo projeto
transformador encontra no seu percurso.
Na primeira parte o foco é a essência do planejamento, visualizada com o apoio
de três metáforas: o jardim, a terra e o amor. Em seguida são trabalhados
aspectos e ferramentas do planejamento de projetos socioambientais. Na
terceira parte são apresentadas as ameaças às iniciativas sociais, como dragões
que rondam os jardins. Finalmente, a guisa de conclusão, como nos
transformamos de caçadores em jardineiros.

ABSTRACT
This article is about the process of social and environmental planning
projects. Aims at contributing to the debate on the view and maintenance of
these projects focused on the vision of transforming society, as the soul
of planning. Also, consider how the use of tools for the design and
implementation of projects can keep up with this essence, working with the
threats and opportunities that any transformative project is on its way.
In the first part the focus is the essence of planning, viewed with the support
of three metaphors: the garden, the earth and love .In the second part are
worked aspects of planning tools and senvironmentaocial and l projects.In the
third section addresses the threats to social initiatives, such as dragons are
around the gardens. Finally, the conclusion, as we become the hunters
in gardeners.

Palavras-chave: planejamento socioambiental; gestão de projetos; iniciativas sociais;
sonhos; jardineiros.

1. O JARDIM

Essa reflexão apóia-se em textos do filósofo Ruben Alves2 que aprecia falar de jardins e
jardineiros. Em um desses textos, o filósofo afirma:

“ O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro.
Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas,
havendo um jardim sem jardineiro mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá?O que é um jardineiro?Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins.”
(ALVES, R. 2002)

Com esse mote podemos pensar que qualquer iniciativa começa primeiro nos sonhos de
alguém, na sua visão de mundo e de futuro. Nos sonhos dos jardineiros.
A palavra utopia, do grego, é o não-lugar, o que ainda não se realizou, não está no mundo
material, mas nos sonhos dos visionários.
É possível fazer planejamentos de aplicação de recursos, de condução de um grupo ou
organização, sem ter brilho nos olhos. Mas esse empreendimento provavelmente será
estéril, pobre em resultados e em perspectivas de futuro. Poderá servir para acolher alguns
interesses, mas dificilmente será instrumento de transformação.
Os empreendimentos humanos emergem dos nossos sonhos, que são comuns ou
visionários. Simples ou complexos. Mas que constituem a essência de cada projeto, de cada
empreendimento.
Os visionários, que têm visão prospectiva, conseguem perceber possibilidades, riqueza
onde muitos vêm pobreza, oportunidades onde muitos vêm crises. Eles são o sal da terra,
pois lideram as inovações, a descoberta de caminhos ainda não trilhados.
Peter Drucker, um sábio da administração, disse que “a melhor maneira de prever o futuro é
construí-lo”3 E Ilya Prigogine, físico, nos lembra que “o futuro é um dos possíveis futuros”
(PRIGOGINE, 2003, p. 56 ), abrindo as portas para inúmeras possibilidades.
Sem um sonho, uma utopia, uma visão, qualquer planejamento é vazio de alma, não tem
essência.
A visão é mobilizadora. Leva indivíduos e organizações a se comprometerem,
voluntariamente, com um esforço comum para superar riscos ou situações de desequilíbrio
social ou para aproveitar oportunidades. A visão de fundadores e organizadores informa o
propósito ou missão de grupos e instituições.
Mas a visão, assim como os sonhos, não são atemporais. Ele são fruto de sonhadores que,
embora visionários, têm a moldura de suas circunstâncias.
Se olharmos o sonho do homem de voar, vemos que a visão dessa possibilidade esteve
presente em muitos momentos na história conhecida do homem, mas que muitos séculos se
passaram desde as asas de Ícaro, passando pelo engenho desenhado por Leonardo da Vinci,
pelos experimentos dos irmãos Wright e do nosso pai da Aviação Santos Dumont, até
chegarmos aos foguetes e às naves interplanetárias.
Cada visionário sonhou esse mesmo sonho na moldura do seu tempo e cada um, cada
grupo, deu passos essenciais para que se chegasse a realizar o sonho do homem em voar.
Hoje voamos também na internet ou navegamos no infomar segundo Gilberto Gil4,
transportando nossa imagem, vozes e idéias para todas as partes do mundo – um outro jeito
de voar.
E isso não quer dizer que outros visionários, partindo desses jardins alados existentes não
possam pensar em novas e novas possibilidades.
Quando uma visão informa a missão de um grupo ou instituição ela tem um prazo de
validade. Precisa ser relida e repensada, retomada e arejada para continuar a viver no tempo
e no espaço.
Quando essa renovação não ocorre os grupos se dispersam e as instituições fenecem como
jardins fechados.

A Terra

Em outra crônica, Ruben Alves diz:
“Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive
de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a
terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os
jardins existem, antes de existirem do lado de fora. (...)Mas os sonhos sendo
coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem
asas. São como as canções, que nada são até que alguém as cante, como as
sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante
na terra.(...)Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu
sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu” (ALVES,R.s/d )

O sonho fez amor com a terra para o jardim nascer. O sonho ganhou chão.
Para ganhar chão precisou ser compartilhado. Raul Seixas cantou que “Sonho que se sonha
só / É só um sonho que se sonha só / Mas sonho que se sonha junto é realidade”5
O visionário pode captar tendências ou possibilidades e modelar um sonho nunca sonhado,
mas para dar corpo a esse sonho será necessário que tenha generosidade e coragem
suficiente para torná-lo um sonho coletivo.
Alguns visionários contentam-se em anunciar a sua visão. Em torno dela podem reunir-se
pessoas que vêem nesse ponto de luz reflexos de fragmentos de seus sonhos e
compreendem uma totalidade antes ignorada. Os artistas muitas vezes cumprem esse papel,
sopram suas bolhas de sabão e no irisado de suas cores muitos encontram a mesma
identidade e tomam para si a tarefa de transforma a visão em missão. Outros, como os
cientistas, testam arduamente suas visões e só as sopram para o mundo quando, de algum
modo, têm segurança sobre a viabilidade de sua concretização. Precisamos de ambos:
inspiração e labuta, labuta e inspiração.
É preciso coragem e generosidade para contar seu sonho para outras pessoas, sabendo que
muitas delas darão de ombros ou rirão dele, sabendo que outras pessoas vestirão seu sonho
com roupas estranhas e que até haverá alguns que se convencerão que o sonho era mesmo
delas. Quem já trabalhou com consultoria sabe que quando o grupo que está sendo apoiado
incorpora a idéia nova como sua, modificada segundo seus saberes, suas tradições, aí é
possível acontecer a transformação.
Também são necessárias lideranças, que podem ser os primeiros visionários ou pessoas
tocadas de tal forma pela visão que a tomam nas mãos para contar aos outros e convencê-los
a plantar, juntos, o jardim sonhado.
O sonho compartilhado mergulha do mundo das idéias para o coração da terra, ocupando
um pedaço de chão, mobilizando trabalho humano, ferramentas, materiais, cuidados.

O Amor

O último extrato escolhido da crônica de Ruben Alves completa o pensamento:
“Mas ninguém nem de longe suspeitava os sonhos que havia na alma do
jardineiro. Quem não sabe pensa que jardineiro só sonha com terra, água eplantas. Mas os jardineiros têm também sonhos de amor. Jardins, sem amor,
são belos e tristes. Mas quando o amor floresce o jardim fica perfumado e
alegre.” (ALVES,R. s/d )
O amor não é um componente para se justapor, mas para misturar desde o início
dessa poção mágica que é o empreendimento que tem por foco o respeito a vida.
Ele está presente no sonho que nasce de corações e mentes solidários e está presente
na generosidade do compartilhamento da visão para desenhar o sonho coletivo.
Mas precisa continuar presente durante todo o processo de preparar, plantar e cuidar
do jardim. É possível ter jardins belos e tristes, jardins apropriados por poucos,
jardins fechados, gradeados, que lá estão apenas para a fruição de poucos. São jardins
sem amor.
O perfume é um elemento generoso, porque ainda que o jardim esteja oculto ele
chega até as pessoas e as presenteia com o odor do manjericão, das rosas. Jardins
perfumados não são apenas belos mas também para todos, assim como os
empreendimentos amorosos e cuidados com amor.
Realizar um sonho dá trabalho - um trabalho com sentido.
Estelle Morin (MORIN: 1996, 2001) apoiada nas formulações de Hackman e Oldman e
nos estudos do grupo MOW (Meaning of Work, 1987), define o sentido do trabalho como
uma estrutura afetiva formada por três componentes: o significado, a orientação e a
coerência. O primeiro, o significado do trabalho tem relação com as representações que o
sujeito tem de sua atividade e o valor que lhe atribui; a orientação trata da sua inclinação
para o trabalho, sua busca e o que guia suas ações; e a coerência é o equilíbrio que o
indivíduo espera da sua relação com o trabalho.
Estudiosos confirmam a centralidade do trabalho na vida das pessoas e a necessidade que
ele tenha sentido aparece como mais importante do que a recompensa financeira que gera.
As pessoas buscam, no trabalho, um sentido e a sua ausência gera sofrimento (ENRIQUEZ,
1999; DEJOURS, 1987). Esse trabalho que gera sofrimento é o trabalho como maldição,
servidão, sem sentido, sem espaço para a autonomia e para a co-criação.
Khalil Gibran, poeta, na mesma diapasão do texto de Ruben Alves, de que “os jardineiros
têm também sonhos de amor”, diz:
“E o que é trabalhar com amor? É tecer o pano com fios tirados do vosso
coração, como se vosso bem-amado fosse usar aquele pano. É construir uma
casa com afeição, como se vosso bem-amado fosse viver naquela casa. É
semear as sementes com carinho e fazer a colheita com alegria, como se vosso
bem-amado fosse comer as frutas.” (GIBRAN,2002,38) Porque “quando
trabalhais, cumprir uma parte do sonho mas profundo da terra...” (GIBRAN,
2002,39. “ (...) o trabalho é tornar o amor visível” (GIBRAN, 2002,p.40).

Os jardineiros sonham e por meio do seu trabalho gestão e dão à luz o jardim no mundo
terreno. E assim tornam o amor visível.
E não se pode esquecer de que “Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um
pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar” (ALVES, R
Antes de partirmos para conceitos e técnicas de planejamento, vamos reforçar e
manter presente durante todo o tempo esses três elementos essenciais aos
empreendimentos que almejam a sustentabilidade e o respeito à vida:


2. O CAMINHO CIRCULAR O PLANEJAMENTO
Agora trata-se de trazer o sonho para fazer amor com a terra.
A visão ilumina um cenário amplo, mas o jardim é realizado passo a passo, com
projetos que se dão por grupos de atores sociais no tempo e no espaço.
Por isso, inicialmente, é preciso distinguir a visão dos projetos, conjunto de ações
programadas no tempo, para alcançar um objetivo, com a previsão da alocação de
recursos e da articulação de atores.
O trabalho de compartilhar a visão e de realizá-la coletivamente implica um processo
de planejamento dinâmico e flexível, que nasce da mobilização da vontade de
transformar uma situação, a partir da visão que ilumina perspectivas, oportunidades
ou problemas a resolver. Esse processo passa pela análise da situação e definição de
objetivos, por escolhas estratégicas de ações percebidas como capazes de identificar e
de realizar objetivos, precisa da articulação de parcerias e de recursos, avança com a
programação e o desenvolvimento das ações programas e exige gestão e
monitoramento que apóiem a avaliação de resultados, o que provoca a revisão de
todas as demais fases e assim por diante.
Embora possamos identificar alguns passos, não significa que eles sejam dados
sempre na mesma ordem e direção, pois é provável que, num processo real de plantar
nosso jardim, tenhamos que fazer recuos e avanços sucessivos para lograr êxito, com
novas análises de situação, ora revendo objetivos, ora mobilizando novos recursos e
parcerias, ora, ainda, modificando a programação de ações.

Fig.1: O ciclo do planejamento





Um campo de muitos métodos


Estudiosos dedicaram-se a elaborar metodologias de planejamento a partir de sua
reflexão e/ou experiência.
A USAID6 desenvolveu, no final dos anos 60, o Marco Lógico7, método para
elaboração, descrição, acompanhamento e avaliação de programas e projetos, ainda
hoje utilizado.
No início dos anos 80, a Sociedade Alemã de Cooperação Técnica - GTZ, contratou
uma empresa de consultoria para aperfeiçoar seu sistema de gestão de projetos de
desenvolvimento e desse processo resultou o ZOPP – Planejamento de Projetos
Orientado por Objetivos8, que integra o Marco Lógico e o instrumental METAPLAN,
que consiste de técnicas de visualização e moderação, introduzindo um modelo de
planejamento participativo.
Carlos Matus, economista chileno, que foi Ministro da Economia do governo Allende,
desenvolveu, nos anos 90, o Planejamento Estratégico Situacional – PES e o Método
Altadir de Planejamento Popular – MAPPE. Seu método PES foi desenvolvido como
método de governo e não deve ser simplificado para projetos isolados, porém suas reflexões
nos livros Adeus Senhor Presidente: governantes governados; Estratégias políticas:
Maquiavel, Gandhi e Chimpanzé são bastante instigantes e esclarecedoras.
Mais do que os sistemas desenvolvidos, os autores iluminam pontos e processos do
planejamento que ajudam a aprofundar as reflexões.
Também há diversos e diferentes manuais de planejamento, disponíveis inclusive na
internet, que nos oferecem dinâmicas e ferramentas de planejamento, boas para ajudar
previsões, monitoramentos, articulação e gestão de recursos.
Na bibliografia, ao final do texto, são indicadas algumas obras e manuais que podem
nos apoiar nesse labor de ajudar o nosso jardim a fazer amor com a terra.
Articulação de atores
O planejamento implica um processo de acordos sucessivos em torno de visões e
interesses dos participantes que constituem a rede ou o grupo empenhado ou
envolvido no propósito do projeto.
A articulação de atores sociais é um trabalho constante no planejamento de projetos,
por isso está no centro da figura ilustrativa do processo de planejamento.
No cenário em que pretendemos plantar nosso jardim é que vamos procurar parceiros
e encontrar apoiadores e opositores. Pessoas que se agregam ao trabalho,
compartilhando uma visão. Simpatizantes que não chegam a envolver-se no plantio
do jardim, mas que podem apoiar o empreendimento de outras formas, inclusive
falando sobre ele. Opositores que discordam da visão e que podem ser silenciosos ou
explícitos, fazer oposição ativa ou passiva. É preciso procurar esses atores sociais,
atrair parcerias, compreender, respeitar e cuidar das oposições. Esse trabalho estendese
durante todo o tempo do projeto,
Compartilhar visões e desenhar coletivamente a missão com um grupo supõe amor,
generosidade e desapego.
Algumas vezes o visionário sonha um jardim de flores azuis e não abre mão do
desenho sonhado. Carrega seu sonho pra lá e pra cá buscando convencer pessoas a
realizar o seu jardim, do jeitinho que ele sonhou.
Se conseguir adeptos eles serão meros operadores de tarefas.
Uma visão precisa estar aberta como um software livre para que as pessoas possam
compartilhar e co-criar.
Uma mesma visão pode inspirar muitos e diferentes projetos.
Bernardo Toro (1996) utilizou a expressão reedição em contraposição a
multiplicação. A reedição implica a recriação da idéia por aqueles que trarão o jardim
para fazer amor com a terra.
Para haver protagonismo e trabalho com sentido, com respeito e estímulo a
autonomia de grupos e populações, é necessário que a visão, a idéia possa ser
reeditada, relida, adequada aos grupos e as condições socioambientais do espaço de
realização.

A análise de situação e as escolhas estratégicas

A análise de situação precisa considerar os problemas não apenas no sentido das
dificuldades, mas também das riquezas e oportunidades de determinado espaço
socioambiental.
Se queremos plantar um jardim não podemos ficar apenas lastimando que o terreno
disponível é sombreado, mas identificar que plantas se adaptam melhor a espaços
sombreados, olhando outras experiências, criando possibilidades. Essa não é uma
maneira de agir de Poliana9, mas uma maneira criadora de ver possibilidades onde
muitos só vêem dificuldades.
Começar mapeando as riquezas de determinada sociedade ou espaço é uma forma de
fortalecer o grupo para encontrar-se com as dificuldades e superá-las de modo
criativo e compatível com os recursos naturais e sociais do lugar.
Uma técnica útil para analisar uma situação é a chamada Árvore de Problemas.
Para analisar uma situação com essa tecnologia é preciso começar com uma chuva de
idéias onde os participantes identificam oportunidades e dificuldades. Isso pode ser
feito de várias formas. Uma metodologia interessante é o World Café10, que permite
colher a opinião de todos os participantes e identificar, na dinâmica, quais as questões
que se potencializam a cada rodada mas, também, põe em circulação percepções
menos óbvias e que provocam aquela reação de “ah, como nunca tinha
pensado/observado isso?”
Escolhidos os problemas para analisar, a técnica da Árvore é traçar uma linha onde o
problema é colocado e ramificar para cima as conseqüências observadas e para baixo
as possíveis causas.

Fig.2 A técnica da árvore






A partir da análise da árvore é possível identificar questões críticas para o projeto de
plantio do jardim e também quais delas são passíveis de atuação ou transformação
pelo projeto.
No exemplo acima, o fato do terreno ser sombreado por edificações não é passível de
transformação pelo projeto. Então não pode ser um objetivo ter sol o dia todo no
espaço do jardim. Contudo, a insolação pela manhã viabiliza a vida de um elenco de
plantas - o que é uma oportunidade para o projeto. Assim como é uma oportunidade
a possível disponibilidade de materiais da feira para compostagem, que pode ajudar a
fertilizar o terreno e ainda ser exemplar para a população residente no entorno. Se a
proximidade com a feira e a localização como passagem das pessoas pode levar ao
problema do pisoteamento, esse é um ponto que deve ser objeto do projeto: como a
passagem pode se tornar uma oportunidade de fruição do jardim e evitar seu
pisoteamento?

A definição de objetivos e formas de atuação

Desse modo é possível estabelecer o objetivo geral e os objetivos específicos do
projeto.
Se o objetivo geral é transformar o terreno em um jardim, os objetivos específicos
devem construir o caminho para isso. Olhando para a árvore dos problemas, objetivos
específicos podem aproveitar oportunidades identificadas, como, por exemplo,
montar uma composteira com resíduos de vegetais e frutas da feira e articular a
vizinhança para participar do plantio. Também é preciso prever nos objetivos a
superação de dificuldades que podem obstaculizar o empreendimento, como, por
exemplo, a preparação de caminhos que passem pelo jardim em direção a feira,
estimulando a sua fruição e, ao mesmo tempo, protegendo a área vegetada.



A programação de ações, recursos e responsabilidades

 Tendo os objetivos do projeto é necessário estabelecer as ações, reunir os recursos
necessários ao empreendimento e definir as responsabilidades de cada pessoa
envolvida no projeto para que ele, de fato, aconteça.
Quando quantificamos os objetivos estabelecemos metas, que têm de ser colocadas
no tempo: quanto se prevê fazer em que tempo. E também precisamos especificar as
ações necessárias para realizar cada objetivo e meta.
No caso do jardim, usado como exemplo, sabe-se que o plantio é mais exitoso na
estação de chuvas, então é preciso organizar o cronograma de modo a ter o terreno
preparado e os insumos necessários para o plantio no momento adequado.
Então, a partir dessa sinalização, distribuímos nossas ações no tempo.
Se para ter os insumos deveremos buscar os recursos, essa busca tem de ser
igualmente ordenada, com a prospecção e abordagem de possíveis colaboradores.
Recursos não são apenas os financeiros, mas também apoios, materiais e horas de
trabalho.
Se um projeto expressa uma dimensão de algum sonho coletivo, esse grupo que
compartilha o sonho precisa mobilizar-se para que ele “faça amor com a terra” e isso
implica responsabilizar-se por ações concretas, no tempo e no espaço.
A preparação para a ação é indispensável para o projeto se desenvolver, mas é preciso
ter cuidado com o reunionismo, isto é, a prática de reuniões numerosas e infindáveis
onde se fala sobre o jardim sonhado e, quase sempre, se lamenta a falta de recursos
para fazê-lo. Isso costuma resultar, como sabemos, no esvaziamento do projeto. As
pessoas simplesmente desistem dele. A ação conjunta anima o grupo a continuar. Os
êxitos, grandes ou pequenos, precisam ser celebrados para que todos continuem
compartilhando um trabalho com sentido. A celebração faz parte do amor, do
cuidado, pois o projeto não é apenas o seu objetivo, mas a visão que o orienta.

O maestro

O filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini (1979), mostra músicos que
integram uma orquestra, alguns por amor à música outros apenas como uma tarefa
remunerada. O filme focaliza como o grupo lida com a produção coletiva de um
concerto musical e com a questão da liderança, passando pela experiência de
autogestão e o conformismo com uma liderança autoritária.
Uma das questões que o filme salienta é que cada músico é protagonista e a maioria
tem grande amor pelo seu instrumento, mas há grande dificuldade em reconhecer a
importância dos demais instrumentos e o papel do maestro.
Isso ocorre com grupos e equipes empenhados em um projeto quando cada qual julga
seu trabalho mais importante do que o dos demais e resiste a colaborar com o
conjunto.
No filme os maestros se sucedem. Eles também têm dificuldade em ver seu papel
como mais um protagonista, ainda que em destaque.
Para que serve o maestro, afinal? Quando os grupos musicais eram pequenos e todos
os músicos podiam se entreolhar e entender-se quanto às entradas e dinâmicas da
peça, a marcação do tempo (métrica musical), não havia necessidade de um maestro.
Quando as orquestras e corais cresceram em integrantes e as peças musicais em
complexidade foi preciso que um regente fizesse o papel de marcar o ritmo certo e
equilibrar as dinâmicas indicadas. Inicialmente foi um dos integrantes do grupo, com sinais gestuais. Depois, um músico com uma batuta, destacado da orquestra e do
coral, e visível para todos, assumiu esse papel de reger o grupo no trabalho de
transformar a partitura – um papel escrito – em ação estética.
Projetos complexos precisam dessa figura do maestro, mais um membro do grupo,
com responsabilidades específicas de acompanhamento de prazos na realização de
ações e da qualidade dos produtos; orientar a organização do trabalho da equipe;
articular e controlar a gestão dos recursos financeiros e materiais, apoiar a relação
com parceiros, financiadores, beneficiários do projeto, facilitar a comunicação.
Com todas essas responsabilidades, o maestro pode cair na tentação de uma liderança
autoritária, que concentra as atividades na sua pessoa, que tem dificuldades de fazer o
duplo movimento de orientar e delegar. Grupos imaturos tendem a eleger uma pessoa
não como liderança facilitadora mas como responsável pela realização do projeto,
desobrigando-se da participação responsável.
Ajuda considerar que pode existir - e coexistir – mais do que uma liderança em cada
grupo, considerando que a liderança é uma qualidade reconhecida pelos liderados e
situacional. Em um grupo é possível encontrar pessoas que têm aptidão para liderar
processos, outras para liderar situações de crise, outras para liderar inovações.
Um bom maestro ajuda essas lideranças a assumir esse papel nos momentos em que a
peça – o projeto – precisa desse destaque e também ajuda o conjunto a harmonizar-se
nos tempos e ritmos requeridos para a realização dos objetivos.
Um grupo amoroso respeita as qualidades e especificidades de seus integrantes e
dedica-se a realizar seu jardim com ética e estética.

Avaliação de resultados

Um projeto, como empreendimento coletivo, precisa ser acompanhado passo-a-passo.
O cronograma não é um papel de parede, mas um instrumento de monitoramento.
Mesmo assim, vamos saber se conseguimos realizar os produtos previstos –
composteira instalada, terra preparada, mudas plantadas, caminhos feitos.
Isso não realiza, por si, o jardim.
“Quem não sabe pensa que jardineiro só sonha com terra, água e plantas. Mas
os jardineiros têm também sonhos de amor.”(ALVES, R. s/d)
Um jardim realizado é perfumado e alegre. O que é um jardim alegre? Um jardim
onde existe vida em si e vida compartilhada, um jardim que pessoas podem fruir,
sentir o aroma, passar por entre flores, descansar à sombra, conviver.
Não se pode ficar satisfeito apenas com a realização do cronograma, com a contagem
das mudas plantadas, das horas trabalhadas. Para que mesmo foi isso?
Projetos complexos costumam necessitar de muito esforço e articulação humana, de
recursos de várias naturezas e esse processo, muitas vezes, faz com que seus
protagonistas mirem e se satisfação apenas com esse fazer, perdendo de vista a visão
que lhe deu origem.
É um desafio mudar o eixo de uma avaliação centrada no controle de meios, para uma
avaliação de resultados, orientada pela análise do serviço efetivamente prestado, pela
mudança realizada em um espaço ou comunidade.
Para que serve um jardim? Que impacto tem naquele pedaço de chão, na saúde do
ambiente, na vida das pessoas? O que mudou ali com a chegada do jardim?
Essa é a pergunta.

3. Dragões espreitam o jardim
Mesmo produzido com muito amor, o jardim sofre ameaças no seu desenvolvimento,
ora intempéries, ora o vandalismo, ora a vaidade do jardineiro.
No livro Os doze dragões em luta contra iniciativas sociais, Lex Bos (1994), alinhado com
a antroposofia, apresenta seis pares de dragões que se aproximam por afinidade:
subvenção e autonomia; amadorismo e parasitismo; dirigismo e autoridade;
organização e pressa; narcisismo e conformismo; dicotomia e sectarismo.
Um dilema que os jardineiros enfrentam é em relação a captação de recursos. Se a
subvenção ameaça pela possibilidade de interferências por parte dos financiadores, de
outro lado, a realização apenas com recursos próprios, autônoma, nem sempre é
possível e desejável. Financiadores podem ser bem vindos caso venham como
parceiros, compartilhando o sonho e o respeito pela iniciativa.
O amadorismo é uma ameaça interna. Os jardineiros precisam ter qualificação ou se
qualificarem para cuidar do jardim. Pessoas que se agregam apenas para fazer
número, atrapalham o trabalho dos que de fato estão na lide.
Outra ameaça é o dirigismo, quando uma pessoa toma a si todas as decisões,
impedindo que as iniciativas e habilidades de outros participantes aflorem e se
realizem. Isso ocorre quando alguém pensa que é a própria iniciativa encarnada, o
que, na prática, impossibilita o protagonismo dos demais. Também o exercício da
autoridade de forma autoritária pode ser um fator de desmobilização do grupo.
A pressa, a afobação em realizar de qualquer modo, pode ser tão ameaçadora como a
excessiva preocupação com a organização, enclausurando tempos e movimentos.
Muitas vezes os condutores de projetos apegam-se de tal modo a definições, como,
por exemplo, cronogramas, que abortam qualquer possibilidade de introduzir idéias e
inovações durante o processo. É preciso lembrar que planejamento é um processo
contínuo e, necessariamente, flexível. Não desorganizado, mas flexível.
O dragão do narcisismo, para Bos, é uma tal empolgação com a idéia, que obscurece
a visão de aspectos da realidade que requerem um repensar e, eventualmente, adiar a
iniciativa. Mas muitas vezes os participantes “não vêem que as resistências
experimentadas na realização de suas idéias surgem pelo fato de estas não terem
ligação com a realidade: dão respostas a perguntas que não foram feitas." (Bos, 1994.
p. 30). De outro lado, o dragão do conformismo é igualmente muito perigoso, pois
queima o entusiasmo. Os jardineiros vão encontrando sucessivas dificuldades e
podem amargurar-se e abrir mão do sonho em troca de realizações fáceis e fracas. No
entanto, Bos lembra que o dragão do conformismo pode ser evitado com a adaptação
criativa, se o ideal for forte o suficiente para permitir as adaptações (Bos, 1994. p.
44).
Finalmente, os dragões da dicotomia e sectarismo rondam continuamente os jardins.
As diferenças de saberes, fazeres, modos de viver são riquezas, mas também geram
conflitos entre correntes divergentes, que se amparam em ideologias, metodologias
ou práticas. Quando essas diferenças são defendidas como dogmas, certezas
inabaláveis o conflito pode evoluir para o confronto. Esses dragões só podem ser
afugentados com a tolerância, que se instala por meio do diálogo, da disposição em
ouvir para compreender, em buscar pontos de convergência e possibilidades de
articulação.

4. De caçadores e jardineiros

Por que essa insistência na metáfora do jardim?
No sentido mítico, Deus foi o primeiro jardineiro, pois “plantou um jardim no Éden
(...) e pôs nele o homem que havia formado”11
Não fez surgir um jardim, mas o plantou.
Zygmunt Bauman, sociólogo, pensador que analisa a sociedade contemporânea, em
uma entrevista a Revista Cult (n.138, agosto, 2009), usou a metáfora dos caçadores e
jardineiros, dizendo que:
“(...) na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do
caçador” (...) “o caçador não podia cuidar do global equilíbrio das coisas,
natural ou artificial. A única tarefa do caçador é perseguir outros caçadores,
matar o suficiente para encher seu reservatório. A maioria dos caçadores não
considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para
outros, que haja reposição do que foi tirado. Se as madeiras de uma floresta
forem relativamente esvaziadas pela sua ação, ele acha que pode se deslocar
para outra floresta e reiniciar sua atividade. Pode ocorrer aos caçadores que
um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas
reservas, mas isso não é a sua preocupação imediata, isso não é uma
perspectiva sobre a qual um único caçador, ou uma “associação de
caçadores”, se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer
coisa.”
O caçador também planeja, mas apenas para a satisfação de suas próprias
necessidades e ambições.
Bauman prossegue:
“Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O
jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende
de constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que
tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados.
Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o
realiza (...) E precisamos sempre tentar a difícil tarefa de detectar um
jardineiro que contempla a harmonia preconcebida para além da barreira do
seu jardim privado.”
E conclui que é
“dos jardineiros que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias.
Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está
sendo trocado, novamente, pela idéia do caçador.”
Kaloustian (2010) nos conta sobre Musô, um dos maiores paisagistas do Japão. Seu
nome é formado por dois ideogramas que significam Sonho e Janela, Foi Musô que
planejou o jardim do Templo Saiho-ji, conhecido como “o templo dos musgos”,
tombado pela UNESCO. São cento e vinte tipos de musgos que formam um tapete
que se estende em todas as direções e que Musô não chegou a ver porque esse tapete
é resultado de centenas de anos de umidade e sombra. Muitos jardineiros devem ter
passado pelo jardim dos musgos, compartilhando e cultivando a visão de Musô.
 Musô é a Janela do Sonho, o que idealmente deveria ser todo o jardineiro: aquele que
abre a janela do sonho, que traz o sonho para a visão de outras pessoas.
“Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos. Um desses
sonhos fundamentais é um “jardim“(...)‘Sonho com um jardim. Todos sonham
com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera...” (ALVES, Jardim,
s/data).

NOTAS DE RODAPÉ

1 Diretora da UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, São Paulo, técnica em planejamento e gestão da
FUNDAP-SP, professora convidada do Curso de Especialização em Gestão de Projetos Sociais no Terceiro Setor, PUC/SP; professora do
Curso de Ecologia, Arte e Sustentabilidade, UNESP-UMAPAZ
2 Ruben Alves é pensador, educador, teólogo e escritor brasileiro, publica livros e crônicas abordando temas existenciais
3Vasconcellos & Pagnoncelli, 1992
4Letra da música Pela Internet, de Gilberto Gil: “um barco que veleje nesse infomar”
5Letra da música Prelúdio, de Raul Seixas
6United States. Agency for International Development
7O Marco Lógico, também conhecido como Logical Framework, LogFrame, tem como principal produto a, MPP - Matriz de Planejamento de Projeto. É utilizado por diversas agências internacionais de financiamento.
8Ziel Orientierte Projekt Planung.
9Personagem de romance do mesmo nome, de Eleanor Porter, que era capaz de ficar feliz até nos piores momentos
10Metodologia desenvolvida por Juanita Brown e Isaac Davis
11Bíblia, Livro de Genesis 2.8.






BIBLIOGRAFIA

ALVES, Rubem Jardim, s/data in A Casa de Ruben Alves: Jardim. Textos: Carta ao
Ministro da Educação e Jardim http://www.rubemalves.com.br/jardim.htm visita em 16 de
outubro de 2011
..........................O retorno e terno – Crônicas. Campinas/SP: Ed. Papirus, 1997
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